Vale a reflexão

Texto  da amiga Juliana Ferraz

Um patamar onde ninguém deve ficar
Por muitos anos, desde que me acheguei a Cristo, fui ensinada à ser santa, irrepreensível e dar a todos um bom testemunho, afinal, me converti dos meus maus caminhos. Não que isso esteja errado, porém, com o passar do tempo, fui construindo uma imagem para que todos pudessem ver essa nova vida de Jesus em mim.

Claro que boa parte disso foi e é verdade. De fato me converti e passei a viver uma nova vida, desenvolvi e ainda desenvolvo santidade e vida com Deus. Porém, a imagem de “mulher de Deus” que satisfaz as pessoas das comunidades por onde passei torna-se perigosa a partir do momento que decido mantê-la a qualquer custo para ser aceita e aprovada pelas pessoas.

Para ficar mais claro o que desejo compartilhar com vocês, estou falando sobre o patamar aonde as pessoas nos colocam, uma vez que identificam um “grau” de espiritualidade em nós. Basta vivermos o Evangelho que Jesus nos deixou, orar por alguém ou dar uma palavra, que você rapidamente pode ocupar um lugar que não é seu.

A necessidade das pessoas em se apoiarem em algo ou em alguém para auxilio no desenvolvimento de sua fé é natural, porém precisa ser saudável. E o que determina se o relacionamento será saudável depende, fundamentalmente, daqueles que devem instruir as
pessoas que buscam esse auxílio.

Porém, o meio em que vivemos hoje como igreja instituição, por muitas vezes nos conduz a depender mais das pessoas do que Deus. A mensagem passada para os fiéis que frequentam nossos cultos e reuniões, ainda que intrinsicamente, destaca a divisão entre clero e leigo, transmitindo a ideia de que somente pastores e líderes são suficientemente “espirituais” e possuem o “alimento” que as pessoas precisam, pois desenvolvem “maior” relacionamento com Deus.

Não estou estabelecendo culpados ou fazendo julgamentos, mas alertando o estrago que isso pode trazer tanto para aqueles que conduzem, quanto para os que são conduzidos.

Uma zona de conforto é criada e, então, as pessoas começam a se alimentar daquilo que outras podem oferecer, ao invés de se relacionarem diretamente com Deus.

É muito comum hoje você perguntar a um cristão sobre qual é a direção que Deus tem dado à vida dele e não obter resposta. Não há resposta porque não há relacionamento e, sem intimidade, não há revelação.

A Igreja de Cristo não pratica relacionamento com Deus e segue a qualquer fluxo, a qual melhor se identifica.

E para complementar, todos são envolvidos em atividades locais com ensaios, cursos, jantares, reuniões. Compromissos que cada vez mais consomem o tempo dos cristãos que poderiam se dedicarem por mais momentos com a família e até mesmo com Deus.

Quantos líderes e pastores hoje estão com lares e relacionamentos sociais destruídos por dedicarem suas vidas a
um “chamado” de Deus?

Ouso dizer até mesmo com seus relacionamentos com Deus estão comprometidos por viverem acreditando que existe uma responsabilidade, excedente aos limites humanos, sobre as pessoas que estão sob suas égides. Estresse, doenças, fadigas, apatia, falta de unção, entre tantos outros sintomas surgem desse mal que precisa acabar.

Quantas vezes vivemos como zumbis rumando num caminho que declaramos ser de Deus quando na verdade não passa de ativismo ou convicção.

Eu creio em direções coletivas para grupos, congregações, ministérios independentes, porém, o que vai determinar se Deus está à frente será o quanto de vida de Cristo estes apresentam fora do contexto congregacional.

Como minha vida se encontra, em todas as esferas, é que vai me responder se estou no caminho certo.

Deus realmente está naquilo que tenho feito pelas forças do meu próprio braço ou as tenho realizados apenas por convicção ou orgulho?

Não consigo ver um Pai que se satisfaz em ver seus filhos sofrerem por algo que Ele não direcionou.

Por isso, ocupar um patamar que nós mesmos nos colocamos, com muito esforço para mantermos nossa imagem de “espirituais”, compromete e atrasa o plano de Deus para nós.

Simples atitudes de mudanças podem nos afastar deste mal religioso, a começar nos tornando pessoas acessíveis, ou seja, sendo quem somos, sem máscaras.

Por que preciso dizer que está tudo bem se realmente não está?

Será que necessito seguir um fluxo politicamente correto para outros para receber aprovação?

O que importa mais para mim? Ser aprovado por Deus ou pelos homens?

Será que estou trilhando de fato no caminho que Deus me preparou ou sigo em busca de algo que entendo ser o
melhor?

Estas e muitas outras perguntas tem permeado os meus dias. Para algumas, já encontrei respostas. Porém, existe
um preço a ser pago, o do desapego. Preicso me desapegar da imagem que construí diante das pessoas, da mulher de Deus que desejo muitas vezes ser e não sou, assumir meus erros, entre tantas outras coisas.

Todos nós precisamos disso.

Mudemos nosso foco e se ocupamos os lugares que citei acima, pastores, líderes ou algo parecido, ainda há tempo de nos arrependermos e ensinarmos aqueles que nos ouvem sobre a dependência de Deus e do relacionamento que o  Pai deseja ter com seus filhos.

Eu tenho descido, a cada dia, um degrau deste patamar e convido você para fazer o mesmo.
 

“(…) mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa,

agradável, e perfeita vontade de Deus”. Romanos 12:2

Juliana Ferraz